Onde está o busto de Lamarca?

05/09/2017
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Foto de Lamarca que inspirou a obra
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O ato final do ex-secretário de Meio Ambiente paulista foi sumir com uma estátua do guerrilheiro no Vale do Ribeira, esbravejando contra “herói ideológico”. Reavivou uma memória incômoda, que inclui bombardeios de napalm pela ditadura

Encaixotado e escondido em um canto qualquer está o símbolo maior do ocaso do ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Ricardo Salles (PP), que deixou o governo de Geraldo Alckmin (PSDB) na semana passada. No dia 8 de agosto, um dia depois de ter assinado a carta de renúncia da pasta que comandou por um ano, Salles decidiu marcar sua saída com um gesto grandioso.

 

 

Em visita ao Parque do Rio Turvo, na região do Vale da Ribeira, sul do Estado de São Paulo, indignou-se com um busto do capitão Carlos Lamarca, líder guerrilheiro da organização VPR, que lutava contra a ditadura, e ordenou que o coronel Alberto Maufe Sardilli, comandante da PM Ambiental, que estava ao seu lado, retirasse a estátua. Além dela, o secretário proibiu de figurar no Museu do Parque um painel que contava a passagem de Lamarca e outros oito guerrilheiros por aquela região em 1970, onde estabeleceram um campo de treinamento.  

Em visita ao Vale do Ribeira, o ex-secretário do Meio Ambiente de São Paulo, Ricardo Salles (PP), ordenou a retirada do busto de Lamarca (Foto: Pedro Calado/ Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo)

Segundo relatos de funcionários do parque, o então secretário esbravejou que a estátua estava “plantando o comunismo no coração das crianças”.

“Pra mim ele não justificou nada não”, disse o prefeito de Cajati, que acompanhava a visita, à Agência Pública. “Simplesmente quando veio o secretário junto com o coronel, ele disse: ‘Pode tirar isso aqui’. Quem retirou foi o funcionário do parque, e perguntou se tinha como eu ajudar a tirar, pôr no carro.”

 

Busto de Lamarca antes de ser retirado do Parque do Rio Turvo (Foto: Reprodução)

 

O gesto de Ricardo Salles, advogado e fundador da página Endireita Brasil, antecedeu em cinco dias o conflito que eclodiu em Charlottesville, nos Estados Unidos, por conta justamente dos planos de retirar a estátua em homenagem a Robert E. Lee, um general confederado durante a Guerra Civil Americana, símbolo dos brancos sulistas que defendiam a permanência da escravidão. Em protesto, uma marcha de brancos supremacistas levou a confrontos que deixaram três mortos e 34 feridos. Nos dias seguintes, dezenas de estátuas semelhantes foram derrubadas em diversas cidades dos Estados Unidos, abrindo uma grande discussão sobre o papel da preservação da história e a exaltação de ideologias racistas.

Por aqui, em Cajati, onde fica o Parque do Rio Turvo, os cerca de 30 mil habitantes mal ficaram sabendo da queda da estátua. O artefato tampouco lembra o garboso monumento americano: pesa 40 quilos, é feito de cimento e coberto de piche. E não guarda lá tanta semelhança com Lamarca.

Feita de maneira sorrateira e sem anúncio no Diário Oficial, a retirada do busto e do painel – este custou aos cofres públicos cerca de R$ 12 mil – foram justificados por Ricardo Salles por meio de nota ao site Direto da Ciência: “Narrar fatos é uma coisa. Erguer bustos com dinheiro público e em parque público é bem diferente. Marighella [sic] foi um guerrilheiro, desertor e responsável pela morte de inúmeras pessoas. A presença desse busto no local é inadmissível”. À coluna de Mônica Bergamo, na Folha, o secretário disse: “Parque não é lugar para ter busto de herói ideológico de nenhum lado”.

A retirada não gerou protestos da população, mas um zunzunzum no Facebook. A filha de Lamarca, Claudia Pavan Lamarca, chamou o ato de “autoritário”. “Resta a figura minimizada e patética do homem, travando uma ‘luta’ irracional com um fragmento de rocha e metal inerte. A cena, mais do que grotesca e medieval, traduz o MEDO que a figura do Lamarca ainda provoca nos representantes da direita”.

A professora de geografia e pesquisadora Lisângela Kati do Nascimento, que estudou o ensino de história nas escolas ao redor do parque, manifestou sua indignação em outro post. “Eu joguei nas redes sociais e falei a população não está sabendo sobre isso. Foi totalmente arbitrário da parte do secretário”, disse em entrevista à Pública. “A referência a Lamarca é superforte na memória da população de Cajati. Poderia ser retirado se tivesse uma consulta pública, junto à população, decidindo tirar. Mas ele mandar tirar é tipo chamar a população de ignorante.”