Inflação, dependência externa e estagnação econômica têm “pés de barro”

12/08/2014
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Houve uma época na América La­tina, e no Brasil em particular – pe­la criativa contribuição de Celso Furta­do a esse debate –, que a discussão do desenvolvimento, sob o enfoque estru­tural, considerava os constrangimen­tos externos (da Balança de Pagamen­tos), as pressões inflacionárias e as ten­sões por estagnação do sistema eco­nômico como males típicos do subde­senvolvimento. As teses da CEPAL dos anos de 1960 ressaltavam também o papel “atrasado” da estrutura agrária e da concentração da renda social na re­produção deste “modelo”.
 
Esse enfoque estrutural foi sen­do abandonado à esquerda e à direi­ta ainda nos anos de 1970. O forte cres­cimento econômico dos anos de 1970 convenceu a esquerda no clássico arti­go de Maria da Conceição Tavares e Jo­sé Serra – “Mais Além da Estagnação”, de que o capitalismo brasileiro tinha fôlego para crescer e que a estagnação não era componente endógena do sub­desenvolvimento brasileiro.
 
Pouco tempo antes, 1969 – toda uma geração de economistas e econo­metristas da USP “provara” a não con­sistência da tese estruturalista da re­lação entre pressões inflacionárias e desempenho da agricultura. E final­mente toda uma estratégia de endivi­damento externo nos anos do milagre (até 1981) aparentemente demonstra­va que o acesso ao mercado interna­cional de capitais seria recurso plena­mente utilizável para resolver o dese­quilíbrio externo.
 
Em resumo, pela teoria e pela práti­ca das políticas econômicas vigentes no período da industrialização e urbaniza­ção intensivas (final dos anos de 1960 até início dos anos de 1980), pratica­mente se desmontaram as teorias críti­cas do subdesenvolvimento (estrutura­lista) e da dependência (marxista). E ao mesmo tempo a “questão agrária” que era o “pé de barro” do desenvolvimen­to no campo, teria ficado superada pela inauguração no regime militar da “mo­dernização conservadora da agrope­cuária” – um experimento de mudança técnica da agricultura sem mudança na estrutura agrária.
 
Mas o abandono do pensamento crí­tico em economia, pela esmagadora maioria dos centros de ensino e pesqui­sa do país – seja de corte estrutural, se­ja de corte marxista –, deixou-nos ór­fãos para pensar problemáticas que se repõem e que terminam sendo vividas, mas não refletidas.
 
Temos na presente conjuntura um relançamento da problemática antiga do subdesenvolvimento, muito embora em contexto histórico completamente diverso. Ficando apenas no “approach” econômico – as evidências do aumen­to da dependência econômica, explici­tamente medidas pelo “déficit na con­ta corrente do Balanço de Pagamentos (desde 2008) são mais do que preocu­pantes. Por sua vez, o recrudescimen­to da estagnação econômica, com de­sindustrialização é também fenôme­no empiricamente demonstrado desde 1981, com certa interrupção no período 2004-2010; e retomada no último qua­driênio. E finalmente o repique das pressões inflacionárias, com claros vie­ses de contaminação pelos preços dos alimentos, que também nos visitam há várias conjunturas.
 
Diante desse quadro estrutural de agravamento da dependência nas re­lações comerciais e financeiras exter­nas, de estagnação econômica e desin­dustrialização e de pressões inflacio­nárias, o sistema dominante nos brin­da com um “gigante salvador da pá­tria” – a exploração intensiva e exten­siva dos recursos naturais pela econo­mia do agronegócio, juntamente com outras cadeias exploradoras das vanta­gens comparativas naturais na mine­ração, na hidroeletricidade e na extra­ção de petróleo bruto.
 
Explorar as vantagens comparati­vas naturais como via de passagem pa­ra uma economia industrial e urbana foi a engenharia econômica construída no pós-guerra. Mas agora é diferente, aparentemente não há qualquer pro­jeto de superação em relação aos pés de barro da estrutura de propriedade, posse e uso da terra e demais recursos naturais que subjaz ao projeto hege­mônico. Veja-se o exemplo muito re­cente do festival de bajulações que os três candidatos à presidência da Re­pública fizeram recentemente às “re­comendações” da CNA-ABAG. E diga­-se de passagem, essas recomendações não tocam no tripé do subdesenvol­vimento, mas insistem com todas as tintas na segurança jurídica da “terra mercadoria”, conceito inexistente no ordenamento constitucional.
 
Mas o “gigante salvador da pátria”, como na decifração do sonho do Impe­rador Nabucodonosor, segunda o Pro­feta Daniel (Dan 2,29-36), tinha preci­samente nos seus pés de barro o ponto de maior vulnerabilidade ao choque ex­terno. Daí ao desmoronamento comple­to do império a uma estrutura de poder completamente desequilibrada, bastou um pequeno passo.
 
- Guilherme Costa Delgado é doutor em economia pela Unicamp e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
 
13/08/2014
 
https://www.alainet.org/de/node/102411
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