Ministros de Lula

08/12/2002
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Segredo de Estado, a data do Dia D ­ 6 de junho de 1944, quando os aliados invadiriam a Normandia, na Segunda Guerra Mundial ­ era conhecida por um pequeno grupo de estrategistas empenhados na derrota de Hitler. De Gaulle, comandante francês, figurava entre aqueles que souberam antecipadamente em que momento se daria o desembarque. Um de seus mais íntimos auxiliares não segurou a curiosidade e perguntou- lhe quando seria o Dia D. "Você é capaz de guardar segredo?", indagou, por sua vez, o oficial. "Sem dúvida", jurou o subalterno. "Eu também", encerrou De Gaulle. Lula sempre destoou do estilo adotado pela média dos políticos. Não age sob pressão e sabe que, em política, informação é poder. E para demonstrar que têm poder, certos políticos adoram cometer inconfidências aos ouvidos de jornalistasŠ Por isso, Lula anda deixando muita gente arrancando os cabelos. Embora não seja mineiro, trabalha em silêncio. Monta a sua equipe de governo como um jogador de xadrez arma cautelosamnte o seu lance. Nada de precipitações. Nem de atiçar o fogo das especulações. Enquanto isso, diverte-se com a loteria ministerial que aparece diariamente nos jornais. Assim, o presidente eleito evita o duplo comando da nação. Não quer a mídia contrastando a opinião do ministro que sai com a do ministro que entra. Nem carregar nos ombros o ônus do governo FHC. Este é responsável por desenjaular o dragão da inflação. Se Lula já tivesse revelado seu ministério, com certeza os maus-humores do mercado seriam atribuídos a ele. Lula esperou 13 anos para chegar à presidência da República. (Aliás, o 13 marca a vida dele. A mãe vendeu a terra em que morava por 13 contos de réis. A viagem de pau-de-arara de Garanhuns a São Paulo levou 13 dias. 13 é o número do PT. Ele foi eleito no 113º ano da República. O avião que o levou à Argentina e ao Chile tem 13 lugares). Se Lula esperou tanto para ser presidente, por que os companheiros não podem esperar umas semanas? Lula, que há anos se cerca de dois assessores, um chamado Spinoza e, outro, Freud, conhece a vaidade humana. Costuma qualificá-la de "carência". Acha graça ao ver companheiros e aliados à espera de um aceno, um cumprimento, uma palavra de consolo ou esperança, como sinal de que não estão esquecidos. Não é verdade que Lula monta o governo sem consultar ninguém. Só que o faz de um modo que nem sempre o interlocutor percebe que, na conversa, o presidente colhe impressões sobre uma lista de nomes. E por mais que a mídia fique colada no pé dele, Lula consegue driblá- la, como no último domingo de novembro, em que, aparentemente, não saiu de casaŠ O ser humano padece cinco grandes tentações: 1) o poder; 2) o poder; 3) o poder; 4) o dinheiro; 5) o sexo. "O poder é afrodisíaco?", indagou o repórter Ricardo Gontijo ao presidente Geisel. O general, muito sisudo, deu-lhe a costas sem emitir resposta. Talvez Afrodite não encontrasse espaço no regime militar, mas Narciso se faz sempre presente onde há poder. O poder infla o ego, eleva a auto-estima, cria uma imantação que atrai todo tipo de agrados, bajulações e elogios. Uma marola de vaidade deixa à deriva aqueles que, em torno de Lula, esperam ansiosos uma nomeação federal. Até parlamentares com mandatos garantidos não conseguem segurar aquele estado de excitação que se apossa do vestibulando no dia do resultado. O mais curioso é que certos candidatos de si mesmos se julgam talhados para determinadas funções, como se Lula não tivesse o direito de decepcioná-losŠ "Vaidade das vaidades, tudo é vaidade", diz o primeiro versículo do livro do Eclesiastes. Embora eu já esteja trabalhando na mobilização social do projeto Fome Zero, contratado pela FAO, a quem me pergunta que função ocuparei no próximo governo, respondo sem titubear: "Ministro". "Ministro? De quê?", reage o interlocutor com os olhos ávidos de curiosidade. "Da eucaristia", completo. Na noite de 27 de outubro, data do aniversário e da vitória de Lula, dei a ele de presente um pequeno quadro com a frase de Jesus no evangelho de Lucas (22, 25-26): "Os reis das nações as dominam e os que as tiranizam são chamados Benfeitores. Quanto a vós não deverá ser assim; pelo contrário, o maior dentre vós torne-se como o menor, e aquele que governa como aquele que serve". * Frei Betto é escritor, autor do romance policial "Hotel Brasil" (Ática), entre outros livros.
https://www.alainet.org/es/node/106683?language=en
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