Não dá mais para viver - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2011-06-10

Brasil

Não dá mais para viver

Elaine Tavares
Clasificado en: Social, Habitat,
Disponible en:   Portugues       


A cidade de Florianópolis nem grande é. Tem uma parte ilha, outra continente e abriga aí umas 400 mil pessoas. Mas, apesar de não ser uma megalópole, a vida aqui é muito parecida a lugares assim. Como a cidade cresceu desordenada e sem planejamento, as ruas são estreitas e o número de carros excessivo. Prefeito atrás de prefeito, ninguém nunca se preocupou em desenvolver o transporte de massa. A cidade sempre foi pensada única e exclusivamente para os carros.
 
A coisa é tão incrível que, mesmo sendo uma cidade turística, Florianópolis deve ser a única cidade/capital do mundo a não ter uma linha de ônibus que passe em frente à rodoviária. Todos os dias chegam e saem da cidade centenas de pessoas. E não há um ônibus que passe ali. As pessoas que chegam à cidade pela via terrestre precisam arrastar suas malas até o terminal central, distante a uns 400 ou 500 metros. E quem vem dos bairros para a rodoviária passa pelo mesmo desconforto. Arrastando malas e se estressando nas ruas próximas ao terminal que são coalhadas de carro. Um desastre. Uma vergonha.
 
Nos dias de semana, uma pessoa que não tenha entrado no turbilhão das compras de carro em 60 meses, e usa o malfadado transporte coletivo, passa por um inferno digno da prosa de Dante. Poucos quilômetros são percorridos lentamente em engarrafamentos monstros. Demora-se de duas a duas horas e meia para fazer 20 quilômetros. Este ano a prefeitura inaugurou um elevado – que ficou em obras por dois anos com uma promessa de solucionar definitivamente as filas – e no primeiro dia foi um deus nos acuda. Hoje, os ônibus ficam sobre o elevado por 20 ou 30 minutos, completamente parados. São quatro vias rápidas desembocando numa via única. Coisa para enlouquecer qualquer cristão. Desastre de engenharia de trânsito.
 
Diante de todos esses horrores cotidianos a única possibilidade de não entrar numa de explodir em “um dia de fúria”, é a boa e velha alienação. Fico imaginando se o velho Marx vivesse neste tipo de capitalismo dependente da periferia do sistema, se ele não iria abençoar a alienação como, talvez, a única possibilidade de se manter são.
 
Eu sempre achei meio lance fraco as pessoas andarem com esses aparelhinhos de ouvir música, alienadas, no meio do turbilhão. Pois hoje eu decidi comprar um, depois de quase ter perdido a tramontana numa tarde destas. Chuva, ônibus fechado, sem ar, gente tossindo, 40 pessoas sentadas e 100 em pé, criança berrando, gente falando ao celular, outros com o celular tocando alto uma música evangélica. Pensei que fosse surtar. Bateu o terror. Está dureza demais viver nesta cidade, do jeito como as coisas vão. No meu bairro, que é pura beleza, os condomínios não param de surgir. Não há ruas, não há esgoto, não há formas de a gente se mexer com tranqüilidade. Tudo está em colapso. A cidade está em colapso. As pessoas também.
 
A certeza de tudo isso se deu numa sinaleira. Meu ônibus parou do lado de outro eu olhei para as pessoas que ali estavam com as caras emolduradas nas janelas. Seus olhares eram catatônicos, tristes, desolados, desesperadores. Minha mirada cruzou com a de outra mulher e eu reconheci nela o mesmo sentimento. Lá no outro ônibus, ela, com os olhos em fogo, via o mesmo que eu. Seres em escombros tentando sobreviver à insuportável travessia.
 
De novo pedi perdão a Marx e rezei aos deuses antigos: bendita alienação. Fechei os olhos e fiquei a escutar Cascatinha e Inhana a cantar velhas cantigas sertanejas. Única forma de sobreviver ao desastre do transporte coletivo. Mas alguma coisa em mim diz que há um tênue fio... um tênue fio, que pode se romper...
 
Elaine Tavares - jornalista
 
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