Declaração de voto - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2010-04-24
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Brasil

Declaração de voto

Frei Betto

Voto este ano,  para presidente da República, no candidato decidido a implementar reformas  estruturais tão prometidas e jamais efetivadas: agrária, tributária, política,  judiciária. E que a previdenciária e a trabalhista não sejam um engodo para  penalizar ainda mais os trabalhadores e aposentados e beneficiar grandes  empresas.

Voto em quem se  dispõe a revolucionar a saúde e a educação. É uma vergonha o sucateamento do  SUS e do ensino público. De 190 milhões de brasileiros, apenas 30 milhões se  agarram esperançosamente na boia de salvação dos planos privados de saúde. Os  demais são tratados como cidadãos de segunda classe, abnegados penitentes de  filas hospitalares, obrigados a adquirir remédios onerados por uma carga  tributária de 39% em média.

Segundo o MEC,  há 4,1 milhões de brasileiros, entre 4 e 17 anos de idade, fora da escola.  Portanto, virtualmente dentro do crime. Nossos professores são mal  remunerados, a inclusão digital dos alunos é um penoso caminho a ser  percorrido, o turno curricular de 4 horas diárias é o verniz que encobre a  nação de semianalfabetos.

Voto no  candidato disposto ao controle rigoroso de emissão de gás carbônico das  indústrias, dos pastos e das áreas de preservação ambiental, como a Amazônia.  Não se pode permitir que o agronegócio derrube a floresta, contamine os rios e  utilize mão de obra desprotegida da legislação trabalhista ou em regime de  escravidão.

Voto em quem se  comprometer a superar o caráter compensatório do Bolsa Família e resgatar o  emancipatório do Fome Zero, abrindo a porta de saída para as famílias que  sobrevivem à custa do governo, de modo que possam gerar a própria  renda.

Voto no  candidato disposto a mudar a atual política econômica que, em 2008, canalizou  R$ 282 bilhões para amortizar dívidas interna e externa e apenas R$ 44,5  bilhões para a saúde. Em termos percentuais, foram 30% do orçamento destinados  ao mercado financeiro e apenas 5% para a saúde, 3% à educação, 12% a toda a  área social.

Voto no  candidato contrário à autonomia do Banco Central, pois a economia não é uma  instância divorciada da política e do social. Voto pela redução dos juros, a  desoneração da cesta básica e dos medicamentos, o aumento real do salário  mínimo, a redução da jornada semanal de trabalho para 40  horas.

Voto na  legalização e preservação das áreas indígenas, de quilombolas e ribeirinhos,  no diálogo permanente com os movimentos sociais e repúdio a qualquer tentativa  de criminalizá-los, nas iniciativas de economia solidária e comércio justo, na  definição constitucional do limite máximo de propriedade  rural.

Voto no  candidato convicto de que urge reduzir as tarifas de energia destinada ao  consumo familiar e de uso de telefonia móvel. Disposto a valorizar fontes  alternativas de energia, como a solar, a eólica, a dos mares e lixões etc. E  que seja contrário à construção de termoelétricas e hidrelétricas nocivas ao  meio ambiente.

Voto no  candidato que priorize o transporte coletivo de qualidade, com preços  acessíveis subsidiados; exija a identificação visível dos alimentos  transgênicos oferecidos ao consumidor; impeça a participação e uso de crianças  em peças publicitárias; e condene veementemente o trabalho  infantil.

Voto no  candidato decidido a instalar a Comissão da Verdade, de modo a abrir os  arquivos das Forças Armadas concernentes ao período ditatorial e apurar os  crimes cometidos em nome do Estado, bem como o paradeiro dos desaparecidos.   

Voto em quem dê  continuidade à atual política externa, de fortalecimento da soberania e  independência do Brasil, diversificação de suas relações comerciais, apoio a  todas as formas de integração latino-americana e caribenha sem a presença dos  EUA; direito de o nosso país ter assento no Conselho de Segurança da ONU; de  repúdio ao criminoso bloqueio dos EUA a Cuba e à instalação de bases militares  estadunidenses na América Latina.

Voto,  sobretudo, em quem apresentar um programa convincente de redução significativa  da maior chaga do Brasil: a desigualdade social.

Este o meu  voto.

Resta achar o  candidato.

- Frei Betto é  escritor, autor de “Calendário do Poder” (Rocco), entre outros livros.   http://www.freibetto.org

Copyright 2010 – FREI BETTO - É proibida a reprodução deste artigo em qualquer  meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br


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