Não confundir camponeses com latifundiários - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2008-03-31
Clasificado en:   Economía: Economia, Agro, Modelos,
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Argentina

Não confundir camponeses com latifundiários

Adolfo Pérez Esquivel

Setores da “classe média acomodada” saíram estes dias em “apoio ao campo”, com a panela de aço inoxidável e a colher de prata para apoiar a greve agrária

A greve agrária na Argentina que já dura mais de 15 dias é utilizada por setores golpistas para desestabilizar o governo e seguir explorando o povo com total impunidade.

Os impostos que o governo impõe sobre as exportações possibilitaram diversas leituras e contradições, que provocado confusão, e gerou os protestos realizados pelos setores do campo. É necessário diferenciar se estes grupos estão juntos e decididos para desestabilizar o governo ou têm suficiente clareza para se diferenciar na luta e nas reivindicações.

Lembro de uma pequena história que diz: “O ladrão corre para o Leste e a polícia corre para o Leste. Os dois correm para o Leste, mas com intenções diferentes”. Os produtores agropecuários nunca tiveram tantos lucros como nos últimos anos, beneficiando-se com a política de câmbio e as exportações de soja e girassol. Os indicadores são eloqüentes e concretos.

Contudo, é necessário fazer uma análise dos custos que essa atividade tem para o país, sua rentabilidade e concentração de riqueza em poucas mãos. As grandes corporações agropecuárias, as transnacionais, destruíram e queimaram milhares de hectares de bosques, apropriando-se de grandes extensões de terra para plantar soja transgênica. Utilizam agroquímicos altamente tóxicos sem se importar com as conseqüências para o meio ambiente e a vida da população.

Recuperação econômica

Por outro lado, as contradições do governo não são poucas, mas é necessário reconhecer que foram dados alguns passos importantes para a recuperação econômica, e isso é positivo. O saque a que foi submetido o país durante a crise de 2001 foi um golpe de Estado econômico, levando ao exterior os capitais e levando ao fechamento de fábricas, desabastecimento, aumento do desemprego e da pobreza, provocado por capitais financeiros e pelo sistema bancário, que buscaram o esvaziamento do país sem se importar com as conseqüências sociais.

Setores da chamada “classe média acomodada” saíram estes dias em “apoio ao campo”, com a panela de aço inoxidável e a colher de prata para apoiar a greve agrária. Muitos já julgaram que a falta de memória é um mal superado. Esqueceram-se que a classe média acomodada sempre acreditou estar a salvo do caos do país. A realidade lhes demonstrou que o capital financeiro não tem amigos, tem interesses. Essa mesma classe média que também foi vítimas do esvaziamento econômico e perdeu seus recursos e economias depositados nos bancos. É necessário recordar disso neste momento e lembrar hoje, também, que ninguém se diz responsável por esta situação e lamentavelmente a impunidade continua.


O governo precisa assumir que se equivocou ao colocar os impostos de forma indiscriminada, por igual, não diferenciando os pequenos e médios produtores rurais, que são a maioria. Muitos destes têm sérias dificuldades em sua produção e suas terras estão hipotecadas. O governo se equivocou ao julgá-los com a mesma vara com que mede as grandes corporações e os latifundiários que têm lucros exorbitantes que tiram do país e que não estão dispostos à redistribuição da riqueza.

Reitero, estamos frente à história do ladrão e da polícia, em que os dois correm para o Leste, mas com intenções diferentes.

Diálogo

A presidente Cristina Fernández Kirchner pediu que acabem com a greve para dialogar e encontrar uma saída ao conflito. É uma medida prudente que os produtores rurais não podem deixar escapar. O diálogo é o caminho para se encontrar soluções.

O governo não pode voltar a se equivocar e tem que diferenciar o camponês do latifundiário. Não pode permitir nem se deixar arrastar pelos golpistas para que provoquem um enfrentamento entre trabalhadores.

Há momentos na vida que o ensino é duro, mas se aprende. Os camponeses lutam por seus direitos e resistem na esperança de poderem um dia viver com dignidade e recuperar a soberania nacional, hoje ameaçada pelos grandes interesses econômicos que se negam a redistribuir a riqueza.

O governo deve ter políticas claras e coerentes entre o dizer e o fazer. Hoje estão vendendo o território nacional, devastando suas riquezas e empobrecendo seu povo. Os impostos são necessários, não somente ao setor agropecuário, mas também às empresas de mineração e petroleiras. Para isso, são necessárias políticas públicas para evitar a exploração irracional e recuperar a soberania perdida. Os impostos devem dirigir-se corretamente para construir o país que queremos. Fica um grande caminho a recorrer, que é necessário assumir entre todos e todas.

- Adolfo Pérez Esquivel é Prêmio Nobel da Paz.

Tradução: Brasil de Fato


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