Impactos econômicos, sociais e ambientais devido à expansão da oferta de etanol - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2007-11-13

Brasil

Impactos econômicos, sociais e ambientais devido à expansão da oferta de etanol

Horacio Martins De Carvalho
Clasificado en:   Política: Politica, |   Social: Social, MedioAmbiente, |   Economía: Economia, RecursosNaturales, |
Disponible en:   Portugues       
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Sumário

A forte tendência de expansão das plantações de cana de açúcar para a produção de etanol objetivando atender, sobretudo, à demanda de curto e médio prazo do mercado internacional, de uma área plantada na safra 2007/2008 de 6,9 milhões de hectares para uma previsão de 28 milhões de hectares em 2017, tem provocado impactos econômicos, sociais e ambientais que tornam essa estratégia de crescimento, do ponto de vista social e ambiental, insustentável.

O processo de concentração da renda e da riqueza no campo com reflexos na concentração e desnacionalização da propriedade da terra, na desarticulação dos territórios e da economia camponesa, na ampliação dos desmatamentos e da poluição ambiental,  assim como o aumento da exploração da força de trabalho para a colheita da cana de açúcar, sugere que o setor do agronegócio contribui de forma decisiva para a dependência neocolonial da economia brasileira perante o EUA, os paises desenvolvidos da Europa e o Japão.

Esse modelo econômico relacionado com a expansão da oferta de etanol reafirma a matriz produtiva e a de consumo nacional e mundial que fortalece o desperdício, a artificialização da agricultura e o consumismo irresponsável e perverso. E, como consequência geral, amplia as desigualdades sociais.

Summary

The strong trend for expansion of sugar-cane plantations for the production of ethanol aiming to supply, largely, the short and medium-term demand of the international market, from a cultivated area in the 2007/2008 harvest of 6, 9 million hectares to a predicted 28 million hectares in 2017, has been producing economical, social and environmental impacts which render this growth strategy unsustainable, from a social and environmental point of view.

The process of income and wealth concentration in the rural areas with reflex in the concentration and internationalization of land property, in the disarticulation of territories and rural economy, in the growth of deforestation and environmental pollution, as well as the in the increase in workforce exploitation for the sugar-cane harvesting, suggests that the agribusiness decisively contributes for the neocolonial dependence of the Brazilian economy on the USA, the European developed countries and Japan.

This economical model related to the increase of ethanol availability reinforces the productive matrix and that of national and world consumption which promote waste, artificial agriculture and irresponsible and perverse consumerism.  And, as a general consequence, amplifies social inequality.


Introdução

Estamos vivenciamos no Brasil um forte ciclo de expansão do agronegócio e, nele, dos agrocombustíveis, em particular do etanol proveniente da cana-de-açúcar.

A expansão da área plantada com cana-de-açúcar está provocando uma reorganização do uso da terra agricultável no país, assim como exercendo forte pressão para o desmatamento dos biomas Floresta Amazônica, Mata Atlântica, Pantanal e Cerrados. E, mais, irradia seu modelo de produção para diversos países da América Latina.

Já são constatáveis os impactos na concentração da terra, na desagregação dos territórios camponeses, no aumento da exploração dos assalariados rurais, na contaminação e degradação do meio ambiente, no aumento real da emissão de CO2 (queima da cana de açúcar para a colheita e desmatamentos), na desnacionalização das empresas rurais e das agroindústrias, na afirmação da dependência da economia do país à exportação de commodities (soja e derivados, carnes e couros, madeiras, celulose e etanol) e, enfim, mas não finalmente, afirma o modelo econômico de concentração e centralização da renda e da riqueza no campo.

Esses impactos têm como causa mais geral o padrão econômico implantado no país que tem como referencial uma concepção de mundo na qual a direção do desenvolvimento e do governo das sociedades nacionais deve ocorrer cada dia mais sob o império de uma nação-rede (hegemonia dos EUA e dos paises industrializados que lhe são orgânicos na direção e dominação mundial) e de um grupo restrito dessas megaempresas multinacionais, as quais definem a natureza e a forma do desenvolvimento econômico, do progresso técnico e da qualidade de vida da população.

Essa racionalidade capitalista neoliberal contemporânea, que vem sendo construída há algumas décadas, determinou e determina a forma como se dá e se dará a industrialização e, numa relação de causa e efeito, a composição da matriz energética mundial.

Foram diversos os fatores que determinaram a dependência mundial da fonte energética não renovável com base no petróleo após o final do séc. XIX. O principal, talvez, tenha sido a diversidade de usos que o petróleo proporcionou com o sistemático avanço das ciências e das tecnologias aplicadas para a sua utilização desde o início da sua extração comercial (1859). Foi, no entanto, com o advento da indústria automobilística e da aviação, assim como das guerras, que o petróleo se tornou o principal produto estratégico do mundo moderno. As maiores 100 empresas do século XX estavam ligadas ao automóvel ou ao petróleo.[1]

O controle da fonte de combustíveis a partir da biomassa pelas mesmas empresas multinacionais, ou grandes empresas a elas associadas, que dominam as fontes de energia fóssil sugere que a tendência política e econômica, sob a hegemonia do modelo econômico neoliberal, é manter a mesma matriz mundial de consumo determinada a partir dos interesses das grandes empresas multinacionais da indústria automobilística, ou seja, manter a economia política do consumismo, do individualismo e do desperdício hoje reinante.


A política global de créditos de carbono evidencia que a intenção dos paises mais industrializados é a de manter o padrão econômico historicamente estabelecido na sua industrialização, mesmo com esforços de melhoria do seu rendimento energético. Isso quer dizer que a pretensão dos governos desses paises é a redução mínima da emissão de gases de efeito estufa (GEE) num nível apenas necessário para servir de base para a sua ideologia de pseudoparticipação no controle e redução do aquecimento global. Ao mesmo tempo, esses paises ampliam os processos de transferência das suas indústrias eletrointensivas e aquelas ambientalmente poluidoras do meio ambiente para os paises ditos como em desenvolvimento.

Segundo o governo dos EUA, se prevê que o consumo mundial de energia aumentará 71% entre 2003 e 2030, e a maior parte desse aumento terá como fonte uma maior demanda de petróleo, carvão e gás natural. Para o final desse período (2030) toda a energia renovável (incluído os agrocombustíveis) está estimada em 9% do consumo mundial de energia. Nesse sentido, é relativo e perigoso se considerar como certo que os agrocombustíveis jogarão um papel importante na luta contra o aquecimento global.
[2]

Mesmo apresentando uma participação relativamente elevada das fontes de energia renovável a Oferta Interna de Energia - OIE no Brasil, mantido o atual modelo de produção de matérias-prima, é social e ambientalmente insustentável.

A matriz energética brasileira

A composição da Oferta Interna de Energia - OIE na Matriz Energética Brasileira, em 2006[3], foi a seguinte:


Essa composição da OIE, onde a fonte renovável representa 45% do total de energia fornecida, é altamente promissora se comparada com a energia de fonte
 renovável no mundo que apresentou uma média 14%, e de apenas 6% nos países mais desenvolvidos da OCDE. Ainda assim, o Brasil não dispõe de uma política nacional energética, nem de planejamento econômico de longo prazo[4] da OIE, a não ser a política de construção de grandes usinas hidrelétricas.

Apesar dessa melhor qualidade da matriz energética brasileira em relação à matriz energética mundial, a composição das fontes de energia renovável apresenta problemas de outra natureza, mas muito preocupantes, tanto do ponto de vista econômico e social como ambiental.

O que compromete essa oferta de energia renovável no Brasil, e a torna não sustentável social e ambientalmente, é o modo como é produzida: monocultura da matéria prima (cana-de-açúcar e madeira para lenha), concentração da terra,  grandes empreendimentos para a produção de energia hidroelétrica e para a produção de etanol, presença elevada do capital estrangeiro nesses investimentos, fortes impactos ambientais tanta na produção da matéria prima como na construção e operação das usinas e a superexploração da força de trabalho assalariada.

Duas fontes importantes de energia renovável, a hidráulica e a da biomassa, que representaram 41,8% da oferta total de energia em 2006, tendem a se constituírem como espaços econômicos privilegiados das megaempresas multinacionais e nacionais, associadas entre si ou não, para a produção e consumo a partir de seus interesses corporativos, seja interno nas suas indústrias seja para venda nos mercados interno e externo.

Por exemplo, “(...) a Associação Brasileira de Grandes Consumidores de Energia (elétrica - HMC) e de Consumidores Livres (Abrace) reúne as principais companhias da indústria eletrointensiva ... consomem 20% da energia elétrica produzida no País ou 45% da soma total do consumo industrial. O faturamento das empresas filiadas à Abrace resvala nos R$ 260 bilhões anuais, o equivalente a 46,1% do valor da produção da indústria extrativa e de transformação; a 13% do faturamento de todas as empresas do país e a 26,5% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro”, como a própria associação define em seu site. Esse poder de fogo proveniente da união de empresas como Alcoa, Aracruz, Bunge, Camargo Corrêa, Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Gerdau e Votorantim, exerce uma substantiva influência na definição de novos investimentos no setor de infra-estrutura e, em especial, no setor elétrico. Parte desses grupos têm interesse direto tanto na participação de consórcios para obras quanto no acesso à energia barata como ‘consumidores livres’ (consomem acima de 3 mil MW por mês e podem comprar eletricidade diretamente do produtor que desejarem - HMC) (...)”.[5]

Um outro exemplo, um caso particular, ajuda a compreender essa tendência à monopolização no setor elétrico. “(...) Dados do Ministério de Minas e Energia demonstram que 408 indústrias eletrointensivas consomem 28,8% de toda a energia elétrica produzida no País, o que a faz, ao mesmo tempo, massiva exportadora de energia elétrica e água. Vejamos um exemplo prático - metade da energia elétrica produzida em Tucuruí é contratualmente destinada à indústria de alumínio. Cerca de 41%  do custo final do processamento do alumínio corresponde à energia elétrica e, no caso de Tucuruí, isto é significativo porque sua tarifa subsidiada é 30% menor do que seria no sul ou sudeste do país. É por isto que o Japão produzia 1,1 milhão de toneladas de alumínio por ano e baixou a produção para apenas 41 mil toneladas/ano, passando a importar o restante. Neste caso, a indústria eletrointensiva é ‘competitiva’ porque, como todas as exportações de bens primários de baixo valor agregado, soma mão de obra barata, energia elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de água virtual.” [6]

Com relação à fonte de energia a partir da biomassa, em particular a oferta de etanol e de lenha, a perspectiva é de oligopolização da produção pelo controle seja das usinas sucroalcooleiras para a oferta de etanol combustível e dos fornos de produção do carvão vegetal para a indústria siderúrgica, seja pelo controle em parte direto e em outra parte indiretamente da produção da matéria prima cana-de-açúcar e eucalipto.

Portanto, por um lado, mesmo que a matriz energética brasileira, ainda dependente do petróleo, tenha na sua composição uma forte presença de fontes renováveis de oferta de energia, o que é desejável, por outro lado, essas fontes renováveis de energia estão sob controle econômico oligopolístico. Esse controle econômico das megaempresas lhes dá poder político de  determinar como, quando e onde se dará essa oferta de energia renovável.

Esse controle oligopolístico das fontes renováveis de energia  ao mesmo tempo em que operam com fontes que poderiam desenvolver mecanismos limpos de produção de energia renovável permitem que as megaempresas se tornem os principais violadores das normas institucionais e da opinião pública no que se referem às questões sociais e ambientais. 

As fontes renováveis de energia a partir das usinas hidroelétricas e da biomassa (etanol, óleos vegetais e madeira) não devem ser dissociadas de outras variáveis como o controle do território (produção da biomassa), da água doce (energia elétrica e transportes fluvial), da presença do capital estrangeiro na economia do país e da permissividade na remessa de lucros (royalties, dividendos, etc.). E como consequência desses fatores os impactos perversos de natureza econômica, social, ambiental, política e institucional na dinâmica do desenvolvimento do país.

Dessa maneira, a reflexão sobre o caso particular da oferta de energia renovável a partir da biomassa, em especial do etanol combustível, não deveria ser dissociada da apreciação das demais fontes que constituem a OIE no Brasil.

A produção atual de etanol


A produção de etanol no Brasil na safra 2006/2007 foi de 21,30 bilhões de litros[7], ou seja, 21,90% maior que a anterior. Desse total a região Centro-Sul do país participa com 90,71%  e  a Norte e Nordeste com 9,29%.[8] Dessa produção total 8,6 bilhões de litros é de álcool anidro e 12,7 bilhões de álcool hidratado.

A área ocupada com cana-de-açúcar no Brasil na safra 2007/2008 é de  6,92 milhões de hectares, superior em 12,30 % à safra anterior. Do total de cana-de-açúcar que está sendo esmagada pelo setor sucroalcooleiro, as usinas do Estado de São Paulo esmagarão 59%; as do Paraná 8,9%; as de Minas Gerais 7,7%; as de Alagoas 5,5%; as de Goiás 4,2% e as de Pernambuco 3,7%[9].

No Brasil, a percentagem de mistura de etanol na gasolina já alcança 25% desde 1º de julho de 2007. Mesmo assim o país ainda terá 4 bilhões de litros de etanol excedente.[10] Portanto, o aumento futuro da oferta de etanol está diretamente relacionado com a exportação.

Demanda de etanol

Três fatores têm sido determinantes para a tendência de alteração da matriz energética mundial: a) a elevação, discreta mas crescente, dos custos da extração, do refino e da distribuição do petróleo; b) a inviabilidade objetiva das grandes empresas multinacionais do petróleo controlarem como desejavam as fontes de petróleo no oriente médio e, recentemente, na Venezuela; c) as questões ambientais, entre elas a redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE) que contribuem para o aquecimento global.

Já há, no entanto, a determinação da maioria dos governos dos paises do mundo de substituírem parte da gasolina pelo etanol. A referência é se alcançar em 2017 a substituição de 20% da gasolina pelo etanol em todo o mundo.

Desde início da década de 90, o Congresso Norte-americano considera que importar mais do que 50% do petróleo consumido no país tende a representar um risco estratégico elevado. Porém, em 1998 essa importação era de 53% e em 2010 deverá ser de 73%. Tudo leva a crer, e a história recente o comprova, que será crescente a busca, pelo governo norte-americano e pelos grupos privados desse país, de fontes alternativas e complementares de combustíveis, em particular aquela da biomassa.

Os impasses econômicos que poderão se verificar nos EUA relativos ao consumo de petróleo e seus derivados não serão somente devido ao aumento da frota de veículos, mas, também, pelo aumento dos insumos para a agricultura, como consequência de uma matriz produtiva altamente dependente dos derivados de petróleo.


A demanda potencial de etanol combustível no nível mundial será crescente e continuada. É necessário salientar que somente a China e a Índia possuem juntas um terço da população mundial (2,3 bilhões de habitantes) e devem continuar a ter altas taxas de crescimento econômico, o que implicará supostamente em aumento da demanda de etanol e de óleos vegetais combustíveis para dar conta das recomendações da mistura etanol com gasolina e dos óleos vegetais para utilização pura ou em mistura com o diesel. E se considerarmos, ainda, os paises industrializados como aqueles da Comunidade Européia, o Japão, a Coréia e a Rússia tudo leva a crer que a corrida pelo etanol e pelos óleos vegetais significará mais do um processo conjuntural. Representará uma mudança estrutural no perfil da oferta de matéria prima mundial para o etanol e os óleos vegetais combustíveis, em especial no Brasil.

Essa tendência de alteração da matriz energética mundial está induzindo as grandes empresas capitalistas multinacionais a viabilizarem alternativas energéticas mais rentáveis em curto e médio prazo, em particular relacionadas com os agrocombustíveis como o etanol e os óleos vegetais.

Está-se, portanto, em presença de uma disputa mundial pela dominação das fontes de energia a partir da biomassa, em especial pelos territórios com recursos naturais mais adequados para a produção da matéria prima necessária.

Oligopolização da oferta da energia da biomassa

As fontes de energia a partir da biomassa se inserem no mesmo movimento geral e histórico de oligopolização das fontes de energia não renováveis pelos grandes capitais. Na atual conjuntura é o etanol o principal produto de interesse mundial, mas tudo leva a crer que os óleos vegetais seguirão o mesmo curso. Isso se deve ao fato de que o etanol e os óleos vegetais tornar-se-ão uma importante fonte de energia renovável para consumo mundial, tendo já se transformado num grande negócio de caráter multinacional. 

O Banco Interamericano de Desenvolvimento - BID diz que o Brasil tem 120 milhões de hectares disponíveis para o plantio de matérias-primas para os agrocombustíveis, e os grupos de pressão de Europa estão falando de quase 400 milhões de hectares que estariam disponíveis para plantações com destino a agrocombustíveis em 15 países africanos. Está-se falando de uma expropriação de territórios numa escala sem precedentes.[14] Há a hipótese, segundo especialista alemão[15], de que o Brasil tem o potencial de abastecer 40% do combustível mundial proveniente da biomassa.[16]

O Brasil tem uma posição privilegiada nessa estratégia mundial devido ao clima favorável, com cerca de 200 milhões de hás terras supostamente disponíveis e com abundante oferta de força de trabalho barata. Além de conhecimento e experiência na extração do etanol da cana-de-açúcar. No entanto, essas pretensões das megaempresas e dos governos de diversos paises industrializados sobre o território brasileiro, sobre as supostas áreas passíveis de serem ocupadas com culturas que forneçam matérias primas para a produção de agrocombustíveis, nega a presença nesses territórios de populações originárias, de camponeses, de vilas e áreas de proteção ambiental, entre outros elementos. Supõe, como o fez na ocupação européia do continente americano no século XVI, que há no Brasil um território vazio, de gentes e de biodiversidade, passível de ser explorado, agora pelo capital monopolista das megaempresas multinacionais.

 “(...) De acordo com a consultoria Datagro, os estrangeiros investiram 2,2 bilhões de dólares no setor desde 2000. A prioridade tem sido colocar dinheiro em negócios graúdos. Da lista das dez maiores empresas do setor de açúcar e álcool no Brasil, quatro já possuem participação de capital estrangeiro: Cosan, Bonfim, LDC Bioenergia e Guarani. Uma quinta companhia, a Santa Elisa, fez recentemente parceria com a americana Global Foods para constituir a Companhia Nacional de Açúcar e Álcool (CNAA), cujo plano é investir 2 bilhões de reais na construção de quatro usinas em Goiás e Minas Gerais (...). Do primeiro grupo (consórcio de empresários – HMC), o melhor exemplo é o megainvestidor húngaro George Soros, dono de uma fortuna estimada em 8,5 bilhões de dólares. Ele se tornou um dos sócios da Adecoagro, que comprou a Usina Monte Alegre, em Minas Gerais, em 2006, e está construindo uma nova usina em Mato Grosso do Sul. ‘Tem muita usina à venda, mas não está fácil achar um bom negócio. Porisso preferimos construir uma’, diz Leonardo Berridi, diretor da Adecoagro. A empresa pretende investir 1,6 bilhão de reais para atingir uma capacidade de processamento de 11 milhões de toneladas de cana até 2015 (...) Outro investidor que decidiu apostar no etanol brasileiro é o bilionário indiano Vinod Khosla, um capitalista de risco que fez fortuna nos Estados Unidos com suas tacadas certeiras --- foi um dos fundadores da Sun Microsystems e financiou o nascimento do Google. Khosla é sócio da Brazil Renewable Energy Company (Brenco), empresa lançada em março por Henri Philippe Reichstul, ex-presidente da Petrobrás (...) O australiano James Wolfensohn, ex-presidente do Banco Mundial, também é sócio estrangeiro da Brenco, que planeja investir 2 bilhões de dólares na produção de álcool no Brasil. Já entre os fundos internacionais destaca-se o Kidd & Company, que, além de deter o controle da usina da Coopernavi, participa da empresa Infinity Bio-Energy ao lado de outros nomes, como a corretora americana Merrill Lynch e os fundos de investimento internacionais Stark e Och-Zitt Management. Empresa listada na bolsa de Londres, a Infinity é dona de quatro usinas no país. Na primeira captação que fez no exterior, em 2006, arrecadou 300 milhões de dólares exclusivamente para investimentos no setor sucroalcooleiro brasileiro. ’Não foi difícil convencer os estrangeiros a investir em etanol no Brasil, pois eles já tinham a percepção das vantagens comparativas do país’, afirma Sérgio Thompsom-Flores, principal executivo da Infinity (...) ‘Há sete anos, eu tinha um único cliente em operações de fusões e aquisições interessado no etanol brasileiro. Hoje, 80% de minha carteira é formada por interessados nesse setor’, diz André Castello Branco, sócio da área de fusões e aquisições da KPMG. A procura é tamanha que já ocorre uma inflação de preços. Na corrida para não ficar de fora desse mercado, quem quiser adquirir uma usina brasileira deve se dispor a pagar, hoje, mais que o dobro do valor médio registrado em 2005, que era de 40 dólares por tonelada de capacidade de moagem de cana. Mesmo com a disparada nos valores, não faltam interessados em abrir o cofre.” [17]

Além desse processo de desnacionalização das agroindústrias ocorre no Brasil uma transferência sem controle do patrimônio público, em particular as terras devolutas, para o patrimônio privado das grandes empresas nacionais  e das multinacionais.

Expansão do etanol no Brasil


A construção de novas usinas sucroalcooleiras no Brasil evidencia que há demanda potencial internacional para o etanol. Segundo a União das Agroindústrias Canavieiras do Estado de São Paulo – ÚNICA,  até a safra 2012/2013, o Estado de São Paulo tem garantido a construção de mais 31 novas usinas, alcançando o total de 179  unidades. No Estado de Minas Gerais, em setembro de 2006, havia 170 novos projetos. No Estado de Goiás,  em outubro 2006[18], 60 projetos de usinas. No Estado de Mato Grosso do Sul há a pretensão de se implantar
51 empreendimentos  (usinas) sucroalcooleiros[19].

O Brasil conta hoje com 364 unidades sucroalcooleiras (agroindústrias) e deverá chegar a 409 ou mais até o final da safra 2012/2013. Caso os projetos anteriormente citados sejam aprovados pelos órgãos governamentais, se ultrapassará em 2013 a um total de 500 usinas sucroalcooleiras no país.


Essa expansão da construção de novas usinas é acompanhada da ampliação da área plantada, da produção de cana-de-açúcar e de etanol no país.

Segundo a Sociedade Rural Brasileira -SRB (projeções a partir de dados de 2005), em 2010 o mercado interno deverá absorver em torno de 27,3 bilhões de litros de álcool e se deverá produzir 31,1 bilhões de litros para o mercado internacional. Significará 58,4 bilhões de litros/ano.[20] Requererá 10,5 milhões de hás só para álcool, ou 22 milhões de hás para álcool e açúcar, mantida a atual produtividade dos plantios de cana-de-açúcar.

Segundo Instituto de Economia Agrícola – IEA do Governo do Estado de São Paulo (outubro de 2006) a área de plantio deverá duplicar em dez anos, de 6,3 na safra 2006/2007 para 12,2 milhões de hectares na safra 2015/16, prevendo-se uma produção de 26 bilhões de litros de álcool e 900 milhões de toneladas de cana. Essa estimativa poderá
ser antecipada para 2012, já com 10,3 milhões de hás e produção de 728 milhões de toneladas de cana-de-açúcar.

A oferta de etanol e de açúcar apresenta, segundo este Autor, a seguinte perspectiva e demanda de área plantada com cana-de-açúcar: safra de 2007/08, 6,92 milhões has; 2014/2015, 22 milhões; 2017/2018, 28 milhões.


Se o Brasil deseja ofertar etanol para abastecer 5% do mercado mundial precisará aumentar a produção em 5 vezes, atingindo 100 bilhões de litros. Significará 28 milhões de hectares de cana-de-açúcar. Perto do dobro disso, dependendo da produtividade obtida com a cana-de-açúcar, seria necessário para substituir 10% do consumo mundial de gasolina.


Essa previsão tem alta possibilidade de se verificar considerando-se não apenas as projeções a partir dos dados recentes, mas a intenção política. O ex-Ministro da Agricultura do Governo Lula (2003-2006), Roberto Rodrigues, ressalta que (...) “Para se ter uma idéia do potencial de crescimento (do etanol – HMC), podemos fazer um cálculo simples. São 200 milhões de hectares ocupados com pastagens, dos quais 90 milhões são aptos para agricultura (entre eles, 22 milhões aptos para a cana). Assim, estima-se que o País pode ampliar a sua área de cana para produção para etanol em até sete vezes. A pesquisa agronômica da cana-de-açúcar indica que se em 10 anos a produtividade de etanol por hectare dobrar, produziremos mais 20 bilhões na mesma área usada atualmente, chegando a um limite de 280 a 300 bilhões de litros por ano. E isso considerando apenas as terras não-irrigadas - ao contrário de países concorrentes que necessitam de irrigação e, portanto, arcam com um custo adicional para produzir.”[21]

Etanol celulósico

O etanol derivado da ligno-celulose é uma das alternativas mais concretas  tanto para os EUA como para os paises europeus, entre outros, que consideram essa tecnologia como referência para reduzir a potencial dependência da produção do etanol a partir da cana-de-açúcar e ou do milho.

No Brasil, a
Petrobrás e a empresa dinamarquesa Novozymes (fornecedora de enzimas celulases) estão estudando parcerias tecnológicas para o desenvolvimento de enzimas para a produção de etanol celulósico, tendo como matéria prima o bagaço da cana-de-açúcar.

A Fapesp[22] uniu-se a duas grandes empresas privadas, a Dedini Indústrias de Base e a Copersucar, para construir uma destilaria capaz de produzir o etanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar, num investimento de R$ 100 milhões. Uma operação-piloto produz etanol, na escala semindustrial, com 5 mil litros/dia, desde 2002.

A tecnologia DHR (Dedini Hidrólise Rápida), de uma empresa privada,  para a produção de etanol celulósico consumiu mais de R$ 50 milhões em pesquisas. A perspectiva é dobrar a produção de álcool se todo o bagaço for destinado a esse tipo de produção.[23]

Nos
EUA a pretensão é a conversão anual de 1,3 bilhões de toneladas de biomassa seca em 227 bilhões de litros de etanol, o equivalente a 30% do seu consumo de combustíveis. A expectativa nos EUA é tornar o etanol celulósico competitivo em 2012.

A hipótese das megaempresas sucroalcooleiras é a de que em 20 ou 30 anos o etanol celulósico será o agrocombustível básico, substituindo o etanol a partir da sacarose, assim como parcela importante dos combustíveis derivados do petróleo.

Impactos da expansão do etanol no Brasil

Impactos diretos


Impactos indiretos:


Impactos gerais na sociedade


Impactos na América Latina


Outros caminhos

Mais uma vez na história do Brasil se perdeu uma oportunidade conjuntural para se realizar mudanças estruturais importantes que permitissem o desencadear de um processo de redistribuição de renda e de riqueza no país.

As possibilidades efetivas que o território brasileiro oferece para a produção de fontes alternativas de energia, em especial a partir da biomassa, teriam permitido a introdução e o desenvolvimento de um outro modelo econômico e social, mais democrático e sustentável, de produção de matérias-primas para, por exemplo, a produção de etanol. No entanto, a opção dominante reproduziu o que-fazer histórico, que se repete sob novas roupagens desde a colônia, onde a concentração da terra, da riqueza e da renda por uma oligarquia multinacional, aliada à nacional, determina a matriz produtiva, as relações sociais de produção e o caráter que o Estado deve assumir para a afirmação desse modelo social excludente e ambientalmente insustentável.

Outro caminho seria possível, no caso, para a expansão e produção de etanol combustível. Para tanto, algumas medidas deveriam e devem ser implantadas, tais como:




[1] As crises do petróleo. Introdução. In História, por Voltaire Schilling. http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/petroleo.htm.

[2] GRAIN. ¡No a la fiebre de los agrocombustibles! Junio de 2006, http://www.grain.org/go/agrocombustibles.

[3] Fonte: MME. Resenha Energética Brasileira (março 2007).

[4]Resumo Executivo - Relatório Final da Matriz Energética e de Emissões Economia & Energia nº 29 Novembro-Dezembro 2001, ISSN 1518-2932 nº 29. Projeto MCT Setor Serviços, Análise Crítica de Resultados.

[5] In Mercado Ético. Assimetria entre empresas e consumidores define setor elétrico.

http://mercadoetico.terra.com.br/noticias.view.php?id=55

[6] Henrique Cortez.  O século do hidronegócio. Jornal do Brasil, 26/07/2005.

In http://www.mabnacional.org.br/noticias/270705_hidronegocio.htm.

[7] CONAB (2007a). Safra cana 2007/2008 Estimativa. 1º Levantamento, maio 2007.

[8] CONAB (2007b). Safra cana 2007/2008 Estimativa. 2º Levantamento, agosto 2007.

[9] CONAB, op.cit. 2007.

[10] Mistura de anidro na gasolina passa para 25% em 1º de julho, (13/06/2007) in

  http://www.portalunica.com.br/portalunica/?Secao=ÚNICA.

[11]MTBE: éter metil-butil terciário, molécula criada a partir da mistura do isobutileno e metanol e que potencializa a octanagem. É um aditivo oxigenado que melhora a combustão no motor. É cancerígeno. Contamina as águas e solos e pode ser persistente nas águas subterrâneas.

[12] C. Ford Runge e Benjamin Senauer. A bolha do etanol. Revista Foreign Affairs

[13] Silva, José Graziano (2007). Biocombustíveis para os pobres. Informe CONSEA, 31 de agosto.
www.presidencia.gov.br/consea ascom@consea.planalto.gov.br

[14]GRAIN. ¡No a la fiebre de los agrocombustibles! Junio de 2006, http://www.grain.org/go/agrocombustibles.

[15] Ernst Schrimpff, Presidente da Associação Federal Alemã de Óleos Vegetais.

[16] Schrimpff, Ernst (2006). A experiência européia de combustíveis renováveis, com destaque aos óleos vegetais. In Werner Fuchs (ed.). Colha óleos vegetais. Curitiba, Edição do Autor, 120 p.; p. 18.

[17] A corrida estrangeira pelo álcool brasileiro, in Revista Exame, 18 de junho de 2007.

[18] Bloomberg,  Silveira (2006). Goiás é o destaque no avanço da cana. Diário Comércio, Industria & Serviços; 13 de outubro http://www.dci.com.br/, in: http://www.polobio.esalq.usp.br/noticias.

[19] Rubens Jr. (08/08/2007). Consórcio ZEE definirá implantação de 50 indústrias sucroalcooleiras no MS. MMA/ASCOM http://www.mma.gov.br/ascom/ultimas/index.cfm?id=3534

[20] SRB. Banco de Dados do Açúcar e do álcool. Consulta em 04/09/2007.

http://www.srb.org.br/modules/news/article.php?storyid=1927

[21] Rodrigues, Roberto, in Entrevista concedida ao Conselho de Informações sobre Biotecnologia, Entrevistas, O limite para crescimento da agroenergia tem a ver também com o tamanho do espaço que daremos à biotecnologia nesse processo, Publicado em 30 de Agosto de 2007.

http://www.cib.org.br/entrevista.php?id=47 (29/08/2007)

[22] Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.

[23] Roberto do Nascimento. Brasil vai produzir álcool de bagaço de cana. In BM&F Brasil, 17 de julho de 2007.

[24] Maria Aparecida de Moraes Silva (2006). Mortes dos “severinos” nos canaviais paulistas, in  Conflitos no campo em 2005. Goiânia, CPT,  Gráfica e Editora América, p.162-166.

[25] Fabíola Gomes, in Etanol no lugar de alimentos. São Paulo, Jornal O Estado de São Paulo, 4 julho 2007.

[26] Agnaldo Brito.  Em cinco anos, preço da terra em SP subiu  mais de 100%. In Jornal O Estado de São Paulo, 19 de maio de 2007.

[27] Rodrigues, Márcio (2007). Usinas terão até 2017 para colher cana sem queimadas em São Paulo . Folha Online – Dinheiro, 04/ 06.

[28] Gazeta Mercantil. Case acelera produção de colheitadeiras. Busca Fácil, 19/4/2007.

[29] Poder destrutivo dos gases de efeito estufa – Existe um conceito conhecido como Potencial de dano global (ou Global Warming Potential – GWP), que se refere ao poder destrutivo das moléculas de cada gás de efeito estufa. A molécula de dióxido de carbono equivale a 1 neste índice. O metano (CH4) tem um potencial 21 vezes maior que o CO2. O óxido nitroso (N2O) tem um potencial de dano 310 vezes maior que o CO2. O hexafluoreto de enxofre (SF6)  tem um GWP 23.900  maior que o CO2. (Ver. Glossário de termos técnicos para entender o Protocolo de Kyoto. Ministério de Minas e Energia – MME, CONPET, in  http://www.conpet.gov.br/kyoto/glossario.php.)

[30] Soraia Abreu Pedrozo. Agricultura libera gases mais poluentes. BM&F  Brasil .  16 de abril de 2007.

[31] SBR (2007). SRB integra o Comitê Nacional de Agroenergia. Da Redação, quinta-Feira, 19 de abril de 2007.  http://www.srb.org.br/modules/news/



http://alainet.org/active/20674&lang=es




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