Enfim, os invisíveis vieram à luz - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2007-08-07

Brasil

Enfim, os invisíveis vieram à luz

Elaine Tavares
Clasificado en: Politica, DerechosHumanos, Social, Laboral,
Disponible en:   Portugues       


Precisou que os trabalhadores da universidade, em greve há mais de 60 dias, trancassem as entradas do campus para que pudessem ser notados por professores, estudantes e comunidade. É sempre assim. Os que lutam parecem invisíveis, até que um mísero interesse seja contrariado. E aqui, no caso, o interesse era realmente sério, pasmem: a necessidade de estacionar o carro.

Por conta desta ação prosaica, batalhas foram travadas e quase acabaram em pancadaria. No Centro Tecnológico, estudantes, insuflados por professores que não conseguiram entrar com seus veículos no campus, partiram para a agressão aos trabalhadores grevistas, tentando arrancar as barricadas e até ameaçando com paus e pedras. Queriam ver garantido o direito de ir e vir dos seus “mestres”. É, porque eles mesmos são proibidos de estacionar os carros no espaço do centro. Ali só entra carro de professor e técnico, numa espécie de privatização camuflada.

Nas outras entradas, novos conflitos. Pessoas enlouquecidas exigiam entrar para estacionar o carro. Não admitiam o fato de terem de deixar os veículos um pouco mais longe do que de costume. Berros, gritos, xingamentos. “Vão trabalhar, vagabundos”. Ninguém queria saber por que os trabalhadores estavam parados, o que reivindicavam. Não, só queriam passar com seus carros. A vida, sem os automóveis, parecia impossível. Que estranha cena!

Nas salas de aula, muitos professores seguiam com seus ensinamentos, impávidos. Pouco se importam se não tem biblioteca, se não tem RU, se os laboratórios estão fechados, se não há coordenadoria nem secretaria. O negócio é despejar algum conteúdo e pronto. Está dada a aula. Dane-se a qualidade do ensino. Só a Apufsc, entidade que congrega os professores, permitiu-se soltar uma nota, onde admite ser pedagogicamente perigoso seguir com as aulas nesta situação. Ainda assim, pouco eco teve. O reitor manteve a atitude de eximir-se, como se nada tivesse a ver com a luta que travam os técnicos.

Alguns professores ainda discutiram com seus alunos a questão da greve dos trabalhadores, mas são uma minoria. Já os estudantes se limitaram a passar pelas barricadas com aquele olhar de ódio, ódio surdo. Não sabem eles que só estão estudando numa universidade pública porque aquele “bando de loucos” tem lutado desde há anos, para que ela se mantenha assim. Não sabem que a greve tem lá os seus motivos salariais, como é normal, afinal, os trabalhadores só tem a sua força de trabalho para trocar. Mas, que também é uma luta pela continuidade da universidade pública, pelo HU público, do qual dependem milhares de pessoas que nada têm.

Os professores e estudantes da UFSC que deram mostras de sua estupidez, incapazes de respeitar a luta dos trabalhadores, só conseguiram fazerem-se ridículos. Foram vencidos pela firmeza das gentes em luta que, diante da agressão e do xingamento, deitaram-se no chão, em paz. Aqueles homens e mulheres, invisíveis no dia-a-dia, deixaram claro que não o são. Eles são os que abrem portas, organizam cursos, fazem jardins, escrevem, somam, diminuem, enfeitam, fazem café, limpam, digitam notas, cuidam, preservam. São pessoas que também fazem a instituição andar. Universidade não é só sala de aula. São pessoas que parecem invisíveis, mas não o são. Mostraram-se ontem, na prosaica ação de impedir as entradas de carros. Mostraram-se dignos, na luta. Mostraram-se valentes, no conflito. Mostraram-se à luz. Existem. São os técnico-administrativos da UFSC, uma categoria que não se entrega aos governos neoliberais, aos destruidores do público, aos mercadores de vidas. È uma gente de fibra que, de um jeito ou de outro, sempre vence.

Quando os professores e os estudantes entram nos prédios em direção às suas salas de aula, aquelas portas abertas, de uma universidade pública e de qualidade, são uma conquista desse povo. O mesmo que fechou o campus ontem e que foi agredido. Um povo que segue em luta, até que o governo federal os escute e os veja. Como a cidade os viu, ontem, por causa dos carros...

- Elaine Tavares – jornalista no Ola/UFSC. O OLA é um projeto de observação e análise das lutas populares na América Latina. http://www.ola.cse.ufsc.br


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