Psico-socioterapia - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2001-09-23

Psico-socioterapia

Frei Betto
Clasificado en:   Política: Politica, DerechosHumanos, |   Social: Social, Exclusion, Poblacion, Violencia, |
Disponible en:   Portugues       
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- Qual é o seu problema? indaga o doutor.

- Medo.

- Medo de quê?

- De mendigo, criança de rua, ladrão, assalto, violência.

- Como procura enfrentá-lo?

- Busco proteger melhor a minha casa e, portanto, a minha família.

- O que faz?

- Instalo controle eletrônico de portas, grades nas janelas, tela eletrificada sobre os muros e outros equipamentos. Faço poupança para mandar blindar o carro.

- Mas Silvio Santos tinha tudo isso e deu no que deu.

- Há também seguranças experientes, formados em lutas marciais e tiro ao alvo.

- Silvio Santos também tinha.

- Estou de mudança para um condomínio fechado, fora da cidade.

- Uma ilha de paz servida por empregados nem sempre bem-pagos?

- Sim, totalmente monitorada por circuito interno de TV, guaritas, rondas e cães amestrados. E eu pago bem os meus empregados.

- Todos pagam?

- Não sei. Acho que meu vizinho nem assina carteira.

- De que adianta uns agirem com justiça se outros sonegam direitos trabalhistas elementares?

- O senhor está sugerindo que o descontentamento de alguns empregados pode resultar em violência no condomínio?

- Não estou sugerindo nada, até porque, no edifício de luxo em que moro, a violência tem sido obra de adolescentes, filhos de famílias abastadas, em busca do que vender para pagar drogas. Acho que o senhor ainda não entendeu.

- O quê?

- O seu medo.

- O que tem ele?

- Ele não vem de fora, vem de dentro do senhor.

- Pode me explicar melhor?

- O senhor tem medo de sair à noite, andar sozinho, falar com estranhos? Medo do futuro, de perder seus bens, ver a família na penúria ou ficar desempregado?

- Sinto muito medo de tudo isso.

- E do Malan, o senhor não tem medo?

- Como assim?

- Medo desta política econômica, dos juros altos, do crescimento econômico da dívida pública, da cascata tributária.

- Nunca havia pensado nisso.

- O senhor tem medo de resvalar para a infelicidade de quem faz da vida uma renhida luta pelo pão de cada dia?

- Sim, tenho muito medo, e por isso me encho de remédios.

- Deixe de tomar remédios. A cura não está no senhor. Está na sociedade em que vivemos.

- E qual a terapia?

- Ir às causas dos males sociais, participar de iniciativas para melhorar e mudar a sociedade, assumir a sua responsabilidade social.

- Então eu tenho cura?

- Sim, desde que se una àqueles que procuram curar a sociedade.

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