Afinal, o país foi para a direita nestas eleições? - América Latina en Movimiento
ALAI, América Latina en Movimiento

2006-10-10

Brasil

Afinal, o país foi para a direita nestas eleições?

Gilberto Maringoni
Clasificado en: Politica, Elecciones, Partidos,
Disponible en:   Español       


Há uma voz corrente entre a esquerda de que o país teria ido mais à direita nas eleições de 1º de outubro. Embora seja difícil responder com segurança para que lado pendeu o Brasil, pois o governo Lula fez de tudo para apagar quaisquer traços de nitidez ideológica ao longo dos últimos quatro anos e a campanha eleitoral não tenha primado exatamente por clarezas de pensamento, é possível perceber que a idéia de rumo à direita é, no mínimo, precipitada.

Tentemos organizar as coisas. Com todos os problemas existentes, podemos assinalar o PT, o PCdoB, o PSB e o PSOL como situados à esquerda do espectro político. E marquemos o PSDB, o PFL, o PP, o PTB e outros mais à direita. O PMDB tem ramificações pelos dois lados, uma espécie de “flex power” da política brasileira.

Se olharmos para os tamanhos das bancadas da Câmara dos Deputados, eleitas no final de semana, e compararmos com a proporcionalidade formada em 2002, veremos que praticamente não houve alterações. O PT passou de 81 deputados para 83, o PSB ficou com os 27 que tinha, o PCdoB passou de 12 para 13 e o PSOl, que não existia, tem 3. Na outra ponta, o PSDB passou de 59 para 65, o PFL de 64 para 65, o PTB caiu de 43 para 22, o PP de 50 para 42 e o PMDB, de 78 foi para 89.

Os novos eleitos

Se não está nos números, o propalado avanço do conservadorismo estaria na eleição de algumas figuras. A mais notável é Fernando Collor, que se consagrou senador em Alagoas. Há outros. O deputado mais votado em todo país, em termos absolutos, foi Paulo Maluf (PP), com 740 mil votos. O estilista Clodovil Hernández colheu 494 mil e, na Bahia, ACM Neto estourou com 437 mil votos. Além disso, vários dos acusados dos escândalos do mensalão e dos sanguessugas ocuparão gabinetes em Brasília, como Sandro Mabel (PL-GO), José Nobre Guimarães (PT-CE), Pedro Henry (PP-MT), Saraiva Felipe (PMDB-MG), Paulo Rocha (PT-PA), João Paulo Cunha (PT-SP), José Mentor (PT-SP), Valdemar da Costa Neto (PL-SP) e outros.

A chegada desses nomes ao Congresso não quer dizer muita coisa. Collor, uma das maiores fortunas de Alagoas, chega ao Senado 14 anos após o impeachment. É um dado negativo, mas é a escolha do povo. Se hoje temos Clodovil, em 1982, um dos campeões de voto foi o cantor Agnaldo Timóteo (PDT-RJ), que se imortalizou ao levar um telefone à tribuna, em seu primeiro discurso, e ligar para a casa, dizendo: “Alô, mamãe!”. Já tivemos o deputado e dramaturgo Eduardo Barreto Pinto (PTB) que, em 1949, desfilou de casaca e cuecas samba canção para fotógrafos da revista “O Cruzeiro”, sendo cassado pela exibição. Quanto a Maluf, não há novidade em seu desempenho. Sabendo do fiasco que faria numa eleição majoritária, ele optou por uma cadeira certa na Câmara, como já conquistou uma vez. Houve a lamentável derrota de Jandira Feghali (PCdoB-RJ), após uma vergonhosa campanha da direita no Rio de Janeiro. Este é um prejuízo real.

O outro lado

Mas há a contrapartida. Ficaram de fora, entre outros conservadores, Eurico Miranda (PP-RJ), Delfim Neto (PMDB-SP), Artur Virgílio (PSDB), que teve 5% dos votos para governador do Amazonas, Severino Cavalcanti (PP-PE), Zulaiê Cobra Ribeiro (PSDB-SP), Ney Suassuna (PMDB-PB), Antero Paes de Barros (PSDB-MS), Jorge Bornhausen (PFL-SC) e Luiz Antônio Fleury Filho (PTB-SP), o comandante do Carandiru. Há, além disso, a espetacular derrota de ACM, na Bahia, diante de Jacques Wagner (PT) e a vitória de Marcelo Deda, em Sergipe. Mesmo a votação de Lula subiu, em relação a 2002, no primeiro turno. De 46,4%, o petista subiu para 48,6%. Por essa ótica, a direita recuou.

Noves fora, ao que tudo indica, o país está onde sempre esteve, como dizia o ex-senador Magalhães Pinto (1909-1996) ao se referir a Minas Gerais. Não há nem avanço e nem recuo até o momento.

Decorrência no segundo turno

Qual a decorrência da tese do crescimento da direita? A de que o estrago já está feito e que daqui por diante tanto faz escolher um candidato ou outro no segundo turno. Se avaliarmos que o jogo ainda está equilibrado, o avanço ou não da direita só acontecerá a 29 de outubro, por mais que se encontrem semelhanças entre Lula e Alckmin.

É bom dizer em alto e bom som: as candidaturas do PT e do PSDB não são iguais, por mais que Lula queira embaralhar as posições e vir com a conversa mole de que nunca foi de esquerda, que dê seqüência ao programa econômico de FHC e que seu partido, hoje, acoberte gangues de trapalhões a agir na penumbra. Sua base social é diferente – basta ver os mapas de votação – e há pelo menos uma área em que a distância com o governo do ex-sociólogo é nítida: a política externa. Não por acaso, um setor afeito a um dos órgãos mais competentes do Estado brasileiro, o Itamaraty, e não ao PT.

Quem pensa não existirem diferenças entre as administrações tucano e petista deveria dar um giro pela América Latina e perceber que, para os governos Evo Morales, na Bolívia, Hugo Chávez, na Venezuela, e Fidel Castro, em Cuba, a perspectiva de uma vitória da velha direita no Brasil é desastrosa.

Lula não tem ajudado muito a explicitar essa nitidez, desde suas alianças pragmáticas com Newton Cardoso e Jader Barbalho, até a manutenção de vários suspeitos de escândalos recentes nas fileiras de sua agremiação. Não tem ajudado ao não dar uma resposta clara sobre o escândalo do dossiê. Não tem ajudado ao não deslocar a campanha do terreno do udenismo histriônico da mídia para o do confronto de propostas para o país. Ao não deixar claro que não fará as reformas trabalhista, sindical e previdenciária e que não apoiará a proposta de independência do Banco Central.

Se Lula não tomar rápido essa iniciativa, aí teremos um avanço da direita, qualquer que seja o governo eleito.

- Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).

Fonte: Correio da Cidadania
http://www.correiocidadania.com.br/ed520/pol3.htm

http://alainet.org/active/13944&lang=es




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